31/07/2015
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A glória da impotência
Por Tadeu Alencar

Sérgio Francês   
 

Poucas coisas geraram tanta comoção como o trágico desaparecimento de Eduardo Campos. Jovem, dinâmico, energia invejável, carregando o sangue de um dos grandes líderes da história recente do Brasil, tendo se tornado, ele próprio, um líder, por força dessa enraizada matriz e do seu talento nato para a vida pública. Esperava-se que o destino permitisse a tão vibrante vocação oferecer ao seu País a fruição de todos os seus dotes, maturados em anos de barrica de carvalho, nas muitas posições que ocupou, todas com brilho.

O que se vê amiúde declarado é que aquele voo cego é um pouco da metáfora do Brasil, com seu Mito de Sísifo, sempre à espreita para fazer a rocha rolar ladeira abaixo antes de chegar ao seu topo, na suprema glória da impotência. Assim se deu com Getúlio, com Juscelino, com Tancredo Neves, no alvorecer da nova Republica, vencido pela doença e pelo cansaço. Tal se perfez também – em formato e proporções diferentes – quando o imponderável abateu Eduardo. Ele vinha de uma trajetória vitoriosa, ascendente, coroada pelo que fez em Pernambuco como primeiro mandatário, cuja governança, de metas, prazos e resultados, multiplicando os investimentos e dando eficácia às políticas públicas, o fez gestor reconhecido e observado com atenção. E como presidente do Partido Socialista Brasileiro, fê-lo crescer com consistência e desenvoltura.

A tradição política burilada e envolta num extraordinário magnetismo pessoal, a experiência dos diversos cargos que ocupou e a inconteste liderança à frente do seu partido o fizeram pensar o Brasil para além das amarras que o mantém oscilando entre o que fora bom no passado – embora insuficiente, diante de uma mora social crônica – e os expressivos avanços na inclusão que foram determinantes num País de desigualdades abissais. Para Eduardo Campos, pensar o Brasil do futuro era reconhecer o que a democracia e a luta para reconquistá-la legaram ao País. A redemocratização, as eleições diretas, o controle da inflação, a responsabilidade fiscal, a inclusão social.

Era chegado, porém, o momento – pregava – do Estado que assegura uma vida melhor: segurança, saúde, educação, moradia, qualificação profissional. Defendia o Estado eficiente e o Estado cidadão. Eficiente para realizar com qualidade e agilidade aquilo de sua responsabilidade, garantindo o adequado uso dos tributos pagos com sacrifício pela sociedade. E cidadão, para evitar a relação vexatória, que obriga a cidadania a ficar de joelhos diante da burocracia que esquece a razão de ser das instituições. Costumava dizer que construímos em boa hora o Estado do controle, e a este precisávamos associar o Estado do fazer.
Tempos difíceis estes em que vivemos, de “vaca desconhecer bezerro”. Um governo sem rumo, sem a bússola do líder. A presidente da República acossada por falsos aliados que riem o riso das hienas cada vez mais abertamente. Ao mesmo tempo a oposição reunida por interesses difusos – porque de origem difusa – excitada com a derrocada que julga iminente do projeto que governa o Brasil há uma dúzia de anos, esquecida de que é preciso comedimento e sensatez a quem pretende governar o País, imerso numa crise profunda.

Dia 13 de agosto faz dez anos da morte de Miguel Arraes e um ano do doloroso passamento de Eduardo Campos. Três dias antes, Eduardo faria 50 anos. Uma década de saudade de um grande brasileiro, filho de agricultores pobres do sertão nordestino, que emprestou sua vida à luta de melhorar o seu País. Um ano de saudade de um jovem líder, seu neto, que, sem nunca receber o bastão – mas tomando-o por direito legítimo e pressentindo os ventos soprarem forte a sua vela, ofereceu sua lucidez política, sua formação, sua energia, a transformar profundamente o Brasil. Ele que deixou um legado que nos orienta, que formou quadros que hão de levar ainda muito longe a força do seu pensamento e que é garantia de sua permanência entre nós.

Mais que a saudade – sem dúvida enorme –, o vazio, num País que, sem timoneiro, navega imerso na névoa. Que a glória e o milagre da vida se sobreponham à impotência da morte. Celebremos, pois, dias de sol, que façam nascer homens cuja chama incandescente iluminem e aqueçam enquanto queimam. E, principalmente, homens que aqueçam e iluminem muito além do fugaz instante em que queimam.

 
 
 
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