31/12/2015
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Esperança
Por Tadeu Alencar

Chico Ferreira    
 

Em tempo de estio devemos fazer chover esperanças. Esta frase me ficou martelando na cabeça depois que a coloquei na mensagem dos cartões de fim de ano. Este não poderia ter sido um ano mais inóspito: severa estiagem e uma crise econômica que ceifou mais de um milhão e meio de empregos e em que o País amarga uma recessão sem precedentes. Não faltam crises. Nem escândalos. Vivemos o paradoxo de uma Presidente da República ameaçada pelo impeachment, e em que o Presidente da Câmara dos Deputados encontra-se denunciado ao Supremo Tribunal Federal e ao Conselho de Ética da Câmara, depois de ter se comportado de modo despótico. Para completar, um mosquito atrevido promove um surto epidêmico que pode sequelar gerações de brasileiros.

Um tempo de estio, portanto, mas indago: é possível ter esperanças? Daqui do meu quartel general, nos engenhos de Santana, sempre é possível recolher fatias de esperança que se debruçam por sobre os muros, na forma de heras, trepadeiras e plantas de cores escandalosas que cobrem o cinza que verte dos jornais. Aqui mesmo nesta varanda de onde consulto a entrada do porto, vejo que o verão começa com um nublado estranho, como se a carga dos tantos problemas nacionais tivesse inibido a libido de um Sol que se compraz em aparecer despido das nuvens que lhe querem vestir. Mas aqui, neste refúgio de bucólicos e ilusórios sítios, há ainda quintais que resistem ao furor imobiliário e que ostentam elegantes palmeiras que balançam ao vento e flores de todas as cores, roxas, lilases, encarnadas, rubras, vermelho-sangue, brancas, róseas, amarelas, cada uma delas como a dizer: "Aqui se cultiva a esperança". Meninos correm álacres, em patinetes improvisados e aqueles rolimãs, com uma tábua em cima, parecem um antídoto contra a tristeza e a vergonha do paraíso tropical.

Enquanto o Brasil oficial segue o seu roteiro de desatinos, com seus coches de seda importada e seus escusos negócios, o Brasil real dribla a crise cultivando pequenos canteiros de hortaliças em pneus velhos improvisados em jardineiras. Um pouco mais além, margeando o rio no sentido de Apipucos, o casario colonial do Poço da Panela, com a sua placidez de tempos acontecidos, também nos fala de esperança. Ah!, meu bom amigo, meu caro e cada vez mais raro leitor, há tantos motivos para não ter esperanças, mas eu sou de uma escola de lutas em que não cabem nem a tristeza nem o desencanto. Há os que se comprazem com as iniquidades e por elas são alimentados, há também os que, passivos e medrosos, não querem mudar o mundo e há os que sofrem e lutam.

Políticos que fazem do seu ofício oportunidade de servir e de defender os interesses do povo, como Arraes, como nosso jovem e intrépido líder Eduardo Campos, padres, como D. Helder, de compleição franzina, mas que se agigantava na busca por Justiça, músicos como o Maestro Duda que, aos oitenta anos, superando as rivalidades da Curica e da Saboeira, bandas de Goiana, faz com que toquem juntas por uma causa que deveria sempre unir a humanidade, pintores como Maurício, tocado pela esperança do Poço e de Santana, escritores como Ariano, educadores como Paulo Freire, atores como Geninha, gente que cultivou e que cultiva esperança. Escolhi ficar entre esses últimos, entre os que sofrem com as mazelas da humanidade, mas que sabem que não podemos jamais dar adeus às armas.

E se cada um tecer um fio de seda, mesmo que em remendos, para fazer crescer a esperança, ela triunfará. E entre os que lutam, há a seiva mineral, os poetas, estes que cavalgam o amanhecer para vencer distâncias insondáveis, entre o homem e ele próprio. Estes, diferentemente de meu trisavô, que apenas adivinhava chuva, esses fazem chover esperança. Sim, eu creio, é possível fazer chover!

 
 
 
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