01/03/2016
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Os três amores
Por Tadeu Alencar

Sérgio Francês   
 

Celebro, por antecipação, três aniversariantes do dia doze de março: Olinda, o Recife e o meu pai, Zeraldi, que completa 90 anos. O que dizer deles, que me deram à luz, que me acolheram em seu regaço e que formaram o meu caráter?

Olinda é onde nasceu Pernambuco. É a gema da nacionalidade, território sagrado, o átomo do Brasil. Um lugar à beira mar plantado, com coqueiros e palmeiras que balançam ao vento, como se a preguiça fosse uma atividade laboral. Seu casario, seus sobrados coloniais, seus becos estreitos remetem à origem dos seus donatários. Portugal está em toda parte: nos mosteiros, no Horto Del Rey, no pátio dos mercados, na azulejaria, na culinária, nos jardins de onde se descortinam cativantes paisagens.

“A República é filha de Olinda”, porque Bernardo Vieira, em 1710, proclamou-a pela primeira vez, sedimentando as revoluções que fizeram de Pernambuco uma província rebelde. Seu carnaval é a apoteose desse espírito libertário, plural, cósmico, juntando a história, a alegria do povo e uma memória de lutas, que é patrimônio da humanidade. Parabéns, Marim dos Caetés!

Já o Recife, a primeira vez que nele pus os olhos, foi como um menino que lambe à distância o algodão doce, sem que tenha como comprá-lo. Eu tinha 14 anos e fiquei como aceso, mirando os prédios, o nome das ruas, a sinuosidade dos rios, a floração dos ipês, o casario da Rua da Aurora: até a fumaça dos ônibus me cativara. Fui desvendando a pátria do Recife pelos becos tortos de São José, um frenesi de gente vendendo, comprando, olhando. O prazer dos sentidos, o aroma dos temperos, as frutas olorosas, as mulatas socando o apurado entre os peitos, a Basílica da Penha, a Igreja do Terço, São Pedro dos Clérigos. O pecado e a penitência coexistindo em perfeita harmonia.

Aquele é um Recife para iniciados, Recife dos negros, Recife do povo. Em Santo Antônio, pontificavam o Santa Izabel, o Palácio das Princesas, o Tribunal de Justiça, as esculturas da Praça da República. A casa da cultura e a ponte de ferro me fascinaram. Na Faculdade de Direito pareceu-me estar destinado àquela beleza sóbria, sem disfarces. O Recife antigo me viria depois, a alfandegária zona, a boêmia, Valdemar Marinheiro, a casa de banhos, o molhe dos arrecifes, o Cais Estelita. O Recife foi um destino escolhido, um vício calculado, uma tatuagem sem agulhas, por que feita com o fogo da memória. Parabéns, cidade lendária!

Quanto ao caçula dos aniversariantes, meu Pai, a primeira lembrança que guardo é a de um homem com óculos  de aviador, numa rural repleta de filhos. Eram oito. Em razão da orfandade precoce, órfão de pai aos 3 anos e de mãe aos quinze, meu Pai nunca foi dado a expansões no contato físico. O afeto, embora abundante, sempre fora silencioso e comedido, mas regente de uma boa conversação. Incutiu nos filhos o valor do trabalho, a educação como fonte de cidadania e a altivez, jamais confundida com soberba, nem com a imprudência, travestida de falsa coragem.

Nas festas, gostava de dançar com minha mãe, era um pé de valsa. Tinha uma coleção de discos que me turvava a razão. ‘Mágoas de um Chorão’ era um primoroso tratado sobre o clarinete, que encheu as minhas tardes, da esperança de que a vida pudesse encerrar mais que a apatia e o tédio que emanam das ordenações cotidianas. Valsas, boleros, chorinhos, baião, tangos, rumbas, - Rumbas Inolvidables – foram a trilha sonora da minha vida com meu pai.

Hoje, na iminência dos 90 anos – que os céus hão de permitir e muito mais – sinto-me em débito com ele. Ele que quase não teve pai, foi um pai exemplar. Um homem digno, honesto, solidário, sensível, corajoso, guerreiro: um homem integral! Parabéns, meu querido Pai, que Deus conceda-me a ti, a Olinda e a Recife, meus três amores, uma vida ainda mais longa!

 
 
 
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