05/07/2016
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De bengalas e chapéus
Por Tadeu Alencar*

Sérgio Francês   
 

O silêncio do cerrado sempre me foi um doce lenitivo. Ancestralidade indígena fez-me afeito à contemplação do céu estrelado. Entre criança e adolescente punha uma cadeira no quintal da casa e deixava-me tomar por aquele azul cravejado de brilhantes, alheio ao pio das corujas, ao tiquetaquear dos grilos, ao carrilhão medonho e ao dobre dos sinos. Gostava do sol, como insetos e lagartos, mas a alma flutuava mesmo era com o leite da lua e a seiva das estrelas. Se o sol doura a pele, a lua banha a consciência. Lua é morada de pensar. Sol é energia e movimento.

Este silêncio confortador me transporta às tantas vezes em que ao alarido das crianças na calçada, preferia a minha própria calçada imaginária, uma alameda onde punha a correr o menino alado, livre como um corcel indomável. Índios e poetas se orientam pelas estrelas. Então, desde tempos imemoriais, busquei discernir os caminhos através da geografia das pedras, mas sempre com os olhos fitos no céu. Não é na terra que se alimenta a esperança. O intestino dos homens, com fome de acreditar no futuro, mastiga o centeio das estrelas. Eu lavro na terra, mas colho no céu, que é onde os deuses depositam os seus frutos. Colecionar chapéus e bengalas, é uma forma de não se perder na armadilha do tempo presente.

Voltando agora do Panamá, além de chapéus tão necessários a quem vive em ensolaradas terras, trouxe uma bengala que adquiri num mercado de artesania. Indaguei à vendedora qual a madeira e ela, orgulhosa: - “cocobolo”. Vi que fizera bom negócio. Passando na esteira do aeroporto, a funcionária olhou-me compassiva, apoiado por aquela bengala e afirmou, de modo reverencial: - “cocobolo!”

Vi que a madeira laranja avermelhada, da qual se utiliza apenas o cerne, tinha o respeito nacional. E disso tive ainda mais certeza, quando entreguei a bengala à comissária, já dentro do avião, pedindo-lhe que a guardasse com cuidado. - “É cocobolo!”. E ela, comprimindo os lábios, em sinal de assentimento, afirmou: “Buena madera”. Cheio de empáfia, afirmei: “Eu morro e ela continua”. E pensei cá com os meus cansados botões, que aquela bengala era feita da mesma matéria de que são feitas as estrelas, que mantêm o brilho mesmo depois que morrem. De seu turno, o pássaro esculpido no castão da bengala, como um albatroz imortal, antes do armário fechar-se, pisca um olho maroto e ouço dize-lo: “é cocobolo!”

*Tadeu Alencar é deputado federal pelo PSB-PE

 
 
 
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