30/03/2019
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Ódio e nojo
Por Tadeu Alencar

   
 

Lembro-me de que nos anos sessenta, as minhas calças curtas tinham os olhos atentos, injetados de ilimitado interesse. Nada escapava à curiosidade infantil, ávida por um mundo inteiro que se me punha ao alcance de investigativa observação. Vivia a fuçar - perdigueiro de domésticas caças - livros, cartas, fotografias, documentos antigos, escrituras de imaginárias terras, relíquias que a história familiar e a saga dos homens sobre a terra vai tingindo com o verniz da memória. Vasculhando o alto de um guarda-roupa de madeira, bamboleando na escada que periclitava em seu intento elevatório, dei com algo que me chamou viva atenção. Era o retrato de um homem jovem, traços bem marcados, bigode aparado por segura tesoura, olhos azuis sonhadores, como se enxergasse o futuro, melhor do que o via o imprevidente olhar do menino. Retirei-o, coberto de poeira, pois o que não está à vista, nem sempre é limpo com o esmero do mesmo pano e espanei-o com a ponta da camisa. Estirei a foto na cama, atraído por aquele olhar de cativante esperança e pensei: - ‘quem é este homem escondido embaixo das espingardas?’. A minha mãe, oito filhos à barra da saia, ao ver-me com aquela foto, tomada de susto, indaga-me com uma clara nota de aflição: ‘onde encontrou isto?’, já voltando a guarda-la ainda mais embaixo daquela poeira cativa da cumplicidade. Sem se deter fez-me ver que aquele era um retrato proibido, que deveria ser mantido longe da vista de todos. Era um cartaz com o retrato de Miguel Arraes. Assim deu-se comigo a entronização ao medo que durante 15 anos assombrou o Brasil. O regime de exceção que se instaurou no País a partir de 1964, garroteou as liberdades, interrompendo a ordem democrática e promovendo as mais graves violações aos direitos humanos. Fechou o Congresso Nacional, empastelou os meios de comunicação, impôs a censura, vasculhou, invadiu, seviciou, perseguiu, prendeu, torturou, exilou e matou centenas de brasileiros: estudantes, religiosos, sindicalistas, camponeses, operários, professores, advogados, artistas, intelectuais, jornalistas, políticos. A redentora não poupou ninguém. Foi ampla, geral e irrestrita. Os fantasmas errantes de Pe. Henrique, Felipe Santa Cruz, Collier, Ezequias, Gregório, Jonas, Manoel Lisboa, Odijas, Pauline, Soledad, Capistrano, Herzog, Zuzu Angel e muitos, muitos outros, interditam qualquer comemoração. Há quem prefira Brilhante Ustra, sócio no requinte da crueldade. Eu prefiro Dr. Ulysses, com a sua pregação evangelizadora: “Conhecemos o caminho maldito. (...)mandar os patriotas para a cadeia, o exílio e o cemitério. (...) Temos ódio à ditadura. Ódio e nojo.”
 

*Artigo publicado originalmente no Jornal do Commercio de Pernambuco, em 29/03/2019.

 
 
 
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