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18/06/2020
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Por uma agenda antirracista
Por Bira do Pindaré

Sérgio Francês   
 

* Artigo publicado originalmente pelo PODER.360 em 18-06-2020.

 

Sou um dentre os milhões de maranhenses descendentes de africanos que, a partir do século 17, foram capturados e trazidos à força em navios que cruzaram o Atlântico até o porto de São Luís para serem escravizados. O estado tem o maior número de comunidades quilombolas do Brasil, e a segunda maior população negra.

Minha participação no movimento começou cedo, na pastoral da juventude católica e no Centro de Cultura Negra do Maranhão. Fui inspirado por Negro Cosme, Magno Cruz, Mundinha Araújo, Professor Luizão e tantos líderes negros maranhenses quase esquecidos pela história oficial nacional. Revivo as referências que me trouxeram para a luta, no momento em que o país se vê levado a compreender de uma vez por todas que, passados 132 anos sem escravidão oficial, continuamos vivendo sob uma nódoa infame.

Para nós a abolição não significou liberdade, mas a virada rumo à construção de uma sociedade que camuflou a dominação sob o signo da democracia racial. Hoje, o país vive duas tragédias simultâneas: o vírus que assola e a permanente mancha insidiosa do racismo, que organiza a exclusão e a violência sistemáticas contra a população negra.

O vírus e o racismo são letais, não se enganem. Aqui e nos Estados Unidos de George Floyd, deixaram mártires e rastro de protestos que revelam a insustentável dureza de ser negro e negra nessas sociedades. No Brasil, pacientes pretos ou pardos e analfabetos têm quase 4 vezes mais chances de morrerem pelo novo coronavírus que pacientes brancos e com escolaridade de nível superior. São dados extraídos de quase 30 mil casos de internações, em pesquisa da PUC-RJ.

Sabemos que o mundo não está organizado para nós. O caso do menino Miguel Otávio mostra como, mesmo sem termos leis segregacionistas, a empunhadura do real (corte real) aponta que tantos dentre nós têm menos chances de vingar e conquistar autonomia. Miguel foi deixado sozinho em um elevador por uma patroa branca. Abandonado, caiu para a morte. Também o menino João Pedro não viu a bala que entrou sua casa, onde brincava.

Os dois episódios que tocaram a opinião pública por um momento, escancaram o racismo na consciência da nação. Pelo menos naqueles que não sucumbiram à narrativa assombrosa do governo Bolsonaro, cujo maior representante é o capitão do mato que se tornou presidente da Fundação Palmares, com o intuito de apagar a história para reescrevê-la com as tintas do dominador.

Instada por um grupo de parlamentares do qual faço parte, a Justiça obrigou a fundação a retirar publicações que negavam a história e a resistência de Zumbi. Em outra ação, o MPF instaurou inquérito para investigar as declarações do senhor Sérgio Camargo, que chamou o Movimento Negro de “escória maldita”, acatando um pedido protocolado na Câmara dos Deputados por Benedita da Silva, Áurea Carolina, Talíria Petrone, Orlando Silva, David Miranda, Damião Feliciano e eu.

No Maranhão, barramos nova investida do governo federal, evitando a remoção das comunidades quilombolas assentadas secularmente no território de Alcântara. Como presidente da Frente Parlamentar em Defesa dos Quilombolas, me somo aos que buscam, em todo o país, a efetivação dos direitos que essa população conquistou na Constituição de 88.

A luta que se trava é a da denúncia permanente do racismo estrutural brasileiro, abrigado na invisibilidade da violência simbólica. No conceito de subcidadania formulado por Jessé Souza, é disso que se trata. O ódio de classe no Brasil se funda na desigualdade herdada da escravidão.

Ninguém escapa a mais de três séculos de escravagismo sem fabricar com o seu próprio engenho e arte outra história. Não aquela edulcorada da nação formada por três raças soberanas. A nossa verdadeira história está sendo reescrita com os matizes da dor, da força inacreditável, da resistência e das potências que nos sustentaram desde o solo africano.

É imperativo que as manifestações antirracistas de agora sejam mais que sopros de indignação. Precisamos de uma nova agenda, nova pedagogia, fundar novas formas de socialização, sistemas de ensino, cultura e instituições que reconheçam, de fato, o racismo que habita em nós.

Somos poucos no Congresso, somos poucos nas universidades, somos poucos nas instituições de poder. Mas somos milhões e a cada dia mais alertas para que a bandeira brasileira não encubra tanta infâmia e injustiça

 
 
 
 
     
 
       
 
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